Monólitos, ou Guaritas da memória

É necessário refletir sobre o caminho. Entendo a utopia da paisagem como um percurso em direção a um horizonte concomitante: a ele se agrega outro horizonte e assim com o seguinte, sempre e simultaneamente. Os andarilhos seguem rumo à vista dos limites e, no fim deste, descobrem que esse limite é outro. O que nos resta nesse instante do devaneio já que a sina que se estende aos passos, de vez a vez, se torna uma constante memória do que vimos segundos atrás, e assim será depois?

Henrique Detomi é um artista que caça totens para a memória. Anda, percorre a paisagem como quem procura abrigo e no instante das passadas entende que a estrada é a cosmografia dos caminhos, e nela existe todas as estradas possíveis. Entende também que o que salva aquele que percorre a infiniteza dessas linhas são as poucas guaritas da memória que nos alertam das lonjuras.

Pinta paisagens que a mim (e a vários outros, posso dizer com segurança) são muito familiares. Vastos campos verdes, com estradas de chão a interromper o horizonte, arbustos a inebriar a visão de quem passa, o céu a corresponder com a cor das folhagens. Eu olho suas pinturas em pé e em movimento como quem segue viagem e se perde toda vez a olhar os mapas. Ah, sim, mas no estreito das vegetações reside também, fisicamente, seus monumentos.

Existe uma dita identidade narrativa no olhar essas imagens, que convida o pé a um percurso de dúvida. Dúvida e receio. Percorre-se esse lugar familiar com muita cautela pois pouco se sabe daquilo que espera na tangência da curva. Mas o encontro com os estranhos objetos, ovnis e bunkers enterrados a esmo servem a algo mais do que alerta do eminente perigo da natureza das andanças. Servem a uma questão geográfica do desejo, pois tratar de paisagem é tratar de desejo. Suas aparições informam-me do que fala esse lugar acontecido, como verdadeiras atalaias da memória, lembrança de que a paisagem é o grande anseio da estranheza. Pode-se dizer que também servem de abrigo ao ócio do percurso, e determinam a vista da reta seguinte. Mas para além, me atrevendo a seguir sem a permissão do artista, tratam da instância primordial do marco zero, do fantasma do outro. O que já foi presença e que agora é ponto de partida do silencio, que nunca dirá uma palavra de onde veio. O que está nesse caminho foi posto e não foi por nós, e talvez nem por quem passou antes, e isso revela antes quem somos, ó esses que percorrem a passagem dos rumos.

Henrique Detomi determina horizontes em suas telas em que, para além dos devaneios pertencentes à paisagem, revela e elege nelas monólitos-guias para tudo o que segue percursos às cegas, percursos que vão do mistério à reverência. Revela que o caminho é o instante do passo e nada cria, pois só se passa e se caminha por aquilo que já é cria do tempo.

David Almeida

Exposição Quando a fuga encontra a si mesma, 2016.